Você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo!

Há alguns dias, estive numa cabine de imprensa e coletiva de filme muito especial. A apresentação de Ferrugem aconteceu horas depois do filme ser premiado no Festival de Cinema de Gramado e foi bonito estar com a equipe do filme na manhã seguinte ao Kikito.

Tem review do filme, nem vou comentar mais aqui, mas trago o assunto porque ao ver comentários sobre a entrevista de Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação com formação na Georgetown University, na Universidade de Londres e no Hunter College, eu lembrei do diretor e roteirista Aly Muritiba contando que a ideia do filme surgiu quando ele e a esposa começaram a conversar sobre qual a idade certa para dar um celular para um filho. Na época o filho dele tinha 12 anos, hoje, aos 14, tem um aparelho e usa redes sociais.

Quando os meus filhos, nascidos em 2000 e 2002 chegaram no Ensino Fundamental 2, eu achei que era hora de dar o celular. No nosso caso, a autonomia que eles tinham de ir e vir da escola, que fica no nosso bairro, foi o motivador desta mudança. A pequena, nascida em 2013, provavelmente ganhará antes, pois não há mais telefones fixos na casa ou no trabalho e sinto que logo ela precisará de um meio de comunicação.

Pexels / Pixabay

Segundo a especialista, saber escolher a idade e o momento para dar um celular ao filho envolve analisar duas questões:

  1. É preciso, previamente, saber qual função o aparelho desempenhará na vida da criança.
  2. Em paralelo, exige analisar o comportamento do filho e seu entendimento sobre limitações e privações.

Nascida no Brasil, mas vivendo nos Estados Unidos desde os 11 anos, Sharon fundou em Nova York o Centro de Educação e Recursos MAIA.

Seu trabalho é orientar pais, escolas e professores sobre desenvolvimento acadêmico, déficits de aprendizado e, entre outros fatores, analisar a efetividade da tecnologia dentro e fora da sala da aula.

“Hoje, o celular virou um bem que as pessoas acham que devem ter porque todo mundo tem. Muitos pais me falam: ‘Minha filha tem 5 anos, a amiguinha tem um celular já e ela quer também’, mas eu acho um crime dar um celular para uma criança de 5 anos. Nesta idade, ela não desenvolveu as habilidades básicas.”

As habilidades às quais Sharon refere-se são denominadas nos Estados Unidos como function executives: capacidade de planejamento, estabelecimento de metas no longo prazo, iniciativa para tomada de decisões e flexibilidade comportamental.

“Parece papo de CEO, mas a metodologia das escolas americanas é estruturada com base em funções desenvolvidas no lobo dos cérebros e são essenciais para tudo que fazemos em nossas vidas. Nos EUA, as escolas tentam entender como a tecnologia está afetando ou beneficiando o desenvolvimento dessas funções executivas. Às vezes, uma nova tecnologia entrega um aprendizado tão rápido, que dificulta que as pessoas foquem, absorvam e se aprofundarem no conhecimento. Parece que virou tudo bullet point.”

As funções executivas demoram de 25 a 32 anos para serem desenvolvidas por completo e por isso seria irrealístico esperar que crianças e jovens consigam se automonitorar e impor os limites sobre o uso da tecnologia.

Sobre este tema, recomendo a leitura do post: A culpa não é dos hormônios. É da imaturidade do cérebro adolescente!

http://www.avidaquer.com.br/a-culpa-nao-e-dos-hormonios-e-da-imaturidade-do-cerebro-adolescente/

No caso da criança de cinco anos, um celular não teria a função prática (“uma criança nesta idade não fica sem supervisão”) e poderia expô-la a situações inseguras (“com quem ela vai começar a conversar?”).

“A idade certa para dar um celular varia de pessoa para pessoa, mas é preciso entender o motivo dele ser necessário. Eu não daria para um adolescente só ‘porque todo mundo tem’. A função dos pais também é saber dizer não.”

O que a especialista fala:

  • é preciso celebrar os benefícios que a tecnologia proporciona, em termos de conhecimento e comunicação
  • também é importante monitorá-la para não criar vícios, desânimo e até comprometer o desenvolvimento dos filhos

Sharon recomenda que os pais mostrem aos filhos os benefícios da internet e as limitações do mundo virtual.

“Muitos pais me procuram dizendo que seus filhos estão desanimados e indo mal na escola. Vamos analisar a rotina deles e vemos que eles passam grande parte do dia no quarto conectados, socializando com várias pessoas e, depois de várias horas, ficam exausto e ‘sem tempo’. A vida online só aponta para tudo que é maravilhoso em geral. E, no caso de uma adolescente que está lutando para criar uma identidade diferente das dos pais, seu uso excessivo pode se tornar uma pressão e virar até bullying.”

Um outro aspecto a trabalhar nesta relação, segundo Sharon, é dar o exemplo.

“Uma das coisas ruins que a tecnologia trouxe para os adultos foi esse fácil acesso a todos o tempo todo. Eles se sentem impelidos a responder rapidamente a todos. E aí ocorre que ficamos o tempo todo online. Mas precisamos criar limites para nós mesmos. Do contrário, os filhos vão falar: você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo.”

Pexels / Pixabay

Do lado das escolas, Sharon diz que as instituições possuem a responsabilidade de entender se a tecnologia levada para a sala de aula está, de fato, ajudando no desenvolvimento dos alunos. E fazer intervenções, para garantir que não está desenvolvendo um aprendizado mais profundo e eficaz. É uma missão difícil, diz, porque o que vende hoje no mundo da educação é “tecnologia” e qualquer escola nova irá ser construída em torno de alguma novidade de mercado.

“Vemos muitas escolas enchendo salas de iPads e novas ferramentas tecnológicas, mas sabemos que o nosso aprendizado não depende apenas de conseguirmos uma informação. Mas, de como sabemos usar essa informação de forma relevante.”

Enfim, a reflexão por aqui, no momento, é essa:

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E aí, qual é o momento familiar?

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